
Curadoria de Carollina Lauriano
Há exatos 525 anos, em 22 de abril de 1500, uma frota portuguesa avistava terras desconhecidas no Atlântico Sul — um episódio que marcaria, nos livros de História, a chegada da missão de Pedro Álvares Cabral às terras que mais tarde seriam chamadas de Brasil.
Historiadores contemporâneos, contudo, colocam em xeque esta narrativa, de que o até então denominado “Descobrimento do Brasil” teria se dado ao acaso.
Mesmo que haja pouca documentação que comprove que tal chegada dos portugueses não foi tão ao acaso assim, entendendo que parte da missão de Pedro Álvares Cabral era tanto consolidar uma nova rota para a Índia, quanto estabelecer os acordos do Tratado de Tordesilhas, por que então foi criado o mito da “descoberta” por acaso?
Quais eram os interesses dessa historiografia que foi tratada como verdadeira sobretudo do início do século 19 até a década de 1980?
A saber que na época da chegada dos portugueses em terras brasileiras e durante o período colonial, Portugal não parecia ter feito questão de acentuar se a conquista do território brasileiro havia se dado de propósito ou não — a intencionalidade do feito não estava no centro das preocupações, a julgar pelos registros produzidos. Nesse momento, o que interessava à coroa era efetivar o direito de posse.
Dessa forma, podemos sugerir que quem consolidou essa ideia de “descobrimento por acaso” foi o império brasileiro, no contexto da pós-independência, como podemos observar em obras como “A primeira missa no Brasil”, de Victor Meirelles, onde há toda uma referência de um destino manifesto por parte da Igreja e de Portugal, no sentido de trazer a palavra, a verdade, o sentido de colonização para essas terras.
Mas foi durante o século XIV, quando o Brasil e o mundo passavam por uma onda de construção de nacionalismo, que a ideia de “descobrimento” se consolida com a intenção clara de criar um caminho reto, progressista, entre uma determinada ideia de descobrimento de um povo que está em busca de algo, juntamente com uma terra que necessita ser descoberta.
E foi nos anos 1930, como novos olhares sobre a história que havia se oficializado como a formação do Brasil, primeiro enquanto colônia, depois como Estado-Nação, que historiadores começam a refutar a ideia de um descobrimento e começam a contestar como se deu a chegada dos portugueses no país.
É sobre esse óptica, de contestar uma única visão da história - que perpetuou por quase cinco séculos, e que hoje vem sendo amplamente revisitada e revisada, que essa mostra se debruça a pensar, a partir de um viés artístico-cultural, o que sabemos da nossa história e quais as intenções por trás de uma narrativa que tinha interesse em manter uma perspectiva redentora, salvadora e ao mesmo tempo uma visão centralizadora da história do Brasil.
Contra a fragmentação violentadora do regime colonial e escravista, essa seleção de obras se empenha na reconstrução de uma continuidade histórica da cultura negra que não se atenha apenas ao discurso sobre o negro na condição de escravizado, mas como produtor de uma cultura singular que entrelaça África e América.
Segundo a historiadora e ativista dos direitos humanos dos negros e das mulheres Beatriz Nascimento, a primeira violência que o negro escravizado sofre é a perda da sua imagem, a partir do momento em que ele tem sua identidade e sujeição apagadas. Com base nessa análise construída pela pensadora, a mostra dessas obras analisa como as imagens que foram construídas sobre a população negra trazida à força ao Brasil colaboraram para a perpetuação de estereótipos e preconceitos sobre essa mesma população.
O Brasil recebeu, aproximadamente, 46% dos cerca de 11 milhões de africanos que desembarcaram compulsoriamente neste lado do oceano Atlântico, ao longo de mais de 300 anos. O país também foi o último a abolir o tráfico negreiro, em 1888, por meio da assinatura da Lei Áurea. Embora tenha declarado o fim da escravização, essa lei não previu um projeto de integração social, perpetuando até hoje desigualdades econômicas, políticas e raciais.
Ao reunir um pequeno mas potente grupo de trabalhos, a mostra se debruça sobre imagens seminais da história da arte, como a gravura de Jean-Baptiste Debret, encenações do Coletivo Legítima Defesa, o filme de Raquel Gerber e o livro de Antonio Bispo dos Santos. Tais obras representam como desde o período colonial até hoje no Brasil existe uma leitura racista sobre o povo negro, não só nas artes, mas também na literatura, teatro e cinema, dentre outros campos da cultura, usualmente falam a partir de si para reescrever a história.
Beatriz Nascimento descreve a violência contida na perda da imagem: é a partir desse entendimento que artistas têm produzido uma série de imagens, a fim de criar um lugar de liberdade para si e, de maneira geral, para toda a população negra. Ao abordar as várias facetas do racismo e questionar os modos usuais de sua representação, essa mostra aponta a importância de estabelecer a noção de construção e fortalecimento da identidade como forma de pertencimento.
Curadoria de Carollina Lauriano
É formada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo. Tem extensão em Pesquisa em arte, design e moda pela Central Saint Martins/ual, atuando como curadora independente desde 2017. Entre 2018 e 2020 atuou como curadora e gestora do Ateliê397, um dos principais espaços independentes de arte de São Paulo. Em 2021, coordenou o programa da residência artística da Usina Luis Maluf.
Em suas pesquisas, interessa discutir a inserção, desafios e conquistas de jovens mulheres artistas no mercado da arte. Dentre os principais projetos realizados estão as exposições "Corpo além do corpo", que discutia corpo queer e a transexualidade feminina e a busca pelo protagonismo de novos corpos na sociedade e "A noite não adormecerá jamais nos olhos nossos", na Galeria Baró, primeira exposição a reunir 20 artistas racializadas em uma galeria comercial para apresentar e discutir a produção de corpos dissidentes dentro do mercado de arte. Curadora adjunta da 13ª. edição da Bienal do Mercosul, mostra que acontece em Porto Alegre em 2022 e curadora do Projeto Expresso e Refúgio, que oferece formação artística ampliada para jovens adolescentes egressos da Fundação Casa.
A programação do Campo Coletivo apresenta conjuntos de obras de linguagens multiplas, por meio de temas que consideramos relevantes conhecermos, quando buscamos conhecimento sobre democracia.