
112 páginas
Ubu editora
Como uma espécie de parábola, usando figuras de comparação, metáforas e imagens de seu cotidiano, Santos (2023) explica a intrincada, elaborada e cruel ação colonial de desapropriar, dominar e escravizar. Sua escrita simples elucida termos e conceitos abstratos e, muitas vezes, distante dos leitores. Nêgo Bispo, como o autor é popularmente conhecido, também destaca os vínculos culturais dos territórios quilombolas, os quais ainda possuem uma circulação bastante restrita e sem muito acesso ao meio acadêmico. Com relação às epistemologias que ele nos apresenta, é importante ressaltar que diversas pessoas ainda as consideram como folclore ou crendices, e não como ciência. O autor afirma e destaca que essas são ciências produzidas por um povo e oriundas de seu modo de viver. Nesse sentido, ele contesta o colonialismo, suas influências e procura ressaltar o protagonismo do povo quilombola na história brasileira. Antônio Bispo não imagina um mundo, ele fala de um mundo: o seu mundo quilombola que dialoga em equivalência com os demais mundos. Tais falas inevitavelmente causam tensões, pois são perspectivas distintas para universos distintos e que, em 500 anos, nunca foram consideradas em nosso país. O conflito gerado aponta que um Brasil detentor e produtor de ciência, bem como o conhecimento sobre ela, ainda é desconhecido por muitos. O silenciamento e a invisibilização circunscritas a esses povos está na base do racismo estrutural brasileiro. Ouvir, ler, reconhecer e estudar esse mundo é uma das formas de luta antirracista no Brasil.
Em seu livro, Nêgo Bispo escreve a partir de suas experiências para falar sobre as relações entre o homem da cidade e o homem do campo, e como essas relações ainda são coloniais. Ao dividir seus saberes como um homem negro e quilombola, o autor revela a importância dos saberes da terra para a preservação da humanidade, nos convidando para uma reconexão profunda com a natureza e os seres que nela habitam. Dessa forma, Bispo nos lembra da importância de preservar as raízes ancestrais, de se reconectar com a natureza e de resistir à opressão, tornando sua obra em um convite para repensar nossa existência e construir uma relação harmoniosa entre homem e natureza.