Aleijadinho

PAIXÃO DE CRISTO DE ALEIJADINHO, 1796–1799

Madeira policromada

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, Minas Gerais

Conjunto escultórico formado por seis grupos instalados em capelas que acompanham o percurso de acesso ao Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. As cenas representam episódios da Paixão de Cristo: a Última Ceia, o Horto das Oliveiras, a Prisão, a Flagelação e Coroação de Espinhos, a Subida ao Calvário e a Crucificação. O conjunto reúne dezenas de esculturas em madeira policromada executadas por Aleijadinho e colaboradores. As pinturas das esculturas são atribuídas a Manuel da Costa Ataíde e Francisco Xavier Carneiro.

Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa (c. 1738–1814), conhecido como Aleijadinho, foi escultor, entalhador e arquiteto, considerado uma das figuras centrais da arte colonial brasileira. Sua produção está associada principalmente às cidades históricas de Minas Gerais. Trabalhou com madeira e pedra-sabão e desenvolveu uma produção que articula escultura, talha, arquitetura e ornamentação. O IPHAN identifica entre suas obras mais importantes os conjuntos de Congonhas e as igrejas e retábulos de Ouro Preto, São João del-Rei e outras cidades mineiras.

porque a Obra faz parte do acervo?

Os Passos permitem abordar a arte como experiência narrativa e espacial. O visitante não observa apenas uma escultura isolada: percorre uma sequência de cenas, aproximando-se fisicamente da narrativa representada. A obra também permite discutir a relação entre escultura, pintura, arquitetura e participação do público. O conjunto faz parte do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1985.

A obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, pode ser relacionada ao tema Democracia a partir das relações entre arte, participação social, representação, trabalho coletivo, pertencimento e patrimônio cultural.

Produzida no contexto da sociedade colonial mineira, sua obra foi realizada em grande parte para igrejas, irmandades, confrarias e ordens terceiras, instituições que tiveram papel significativo na encomenda e no financiamento da produção artística do período. Essas organizações religiosas também expressavam diferentes formas de associação e pertencimento dentro da sociedade colonial, marcada por profundas desigualdades sociais e raciais.

Essa dimensão permite deslocar o olhar da figura do “gênio individual” para os processos coletivos de criação e circulação da arte. A produção atribuída a Aleijadinho envolveu oficinas, artífices, colaboradores, contratantes e comunidades que participaram, de diferentes maneiras, da construção dos espaços e objetos de devoção. Estudos contemporâneos vêm justamente questionando a imagem romântica do artista completamente autônomo e destacando a dimensão coletiva dos processos de trabalho nas oficinas coloniais.

A relação com a democracia pode, portanto, ser construída a partir de uma pergunta sobre quem participa da construção da cultura e da memória coletiva. Embora a sociedade colonial estivesse longe dos princípios de igualdade e participação política que fundamentam a democracia contemporânea, suas formas de associação, produção e ocupação dos espaços coletivos permitem discutir historicamente como comunidades constroem referências simbólicas compartilhadas.

A obra também possibilita problematizar representação e visibilidade. A sociedade mineira do período era atravessada pela escravidão, por hierarquias sociais e por distinções raciais, inclusive no interior das irmandades religiosas. Ao mesmo tempo, a presença de populações negras e mestiças na formação cultural e artística de Minas Gerais constitui parte fundamental da história dessas produções.

Assim, a obra permite estabelecer uma ponte entre produção cultural e direito à memória: aquilo que foi produzido em um contexto colonial específico tornou-se, ao longo do tempo, patrimônio compartilhado e objeto de políticas de preservação, pesquisa, educação e acesso público.

Linguagem artística

Escultura

Temas

colonialismo e colonização
religiosidade
cidadania, cidades, comunidades e urbanismo

Períodos históricos

período colonial