
Literatura
15 volumes, subdivididos em 40 partes
Biblioteca do Senado Federal — Coleção de Obras Raras
A Flora brasiliensis é uma das maiores obras de referência sobre a flora brasileira produzidas no século XIX. O projeto reuniu descrições taxonômicas, classificações científicas e representações visuais de milhares de espécies vegetais encontradas no território brasileiro. Publicada ao longo de 66 anos, entre 1840 e 1906, a obra constitui um empreendimento científico de longa duração. Em sua configuração final, reúne 15 volumes divididos em 40 partes e apresenta 22.767 espécies, acompanhadas por 3.811 pranchas litográficas. As imagens possuem elevado nível de detalhamento e foram produzidas como instrumentos de identificação e descrição científica das plantas. As pranchas de folhas, flores, frutos, sementes, caules e outras estruturas são representados de maneira minuciosa, permitindo observar características morfológicas utilizadas na classificação botânica. Algumas litografias também apresentam paisagens e diferentes formações vegetais, aproximando a representação científica da observação do território.

Karl Friedrich Philipp von Martius (1794–1868) foi médico, botânico e naturalista alemão. Em 1817, integrou, juntamente com Johann Baptist von Spix, a missão científica austríaca que acompanhou a arquiduquesa Leopoldina ao Brasil. Entre 1817 e 1820, Martius percorreu aproximadamente 10 mil quilômetros pelo território brasileiro, passando por diferentes regiões, da atual região Sudeste ao Nordeste e à Amazônia. Durante a expedição, coletou, descreveu e classificou milhares de espécimes vegetais, construindo um dos mais extensos registros científicos da flora brasileira realizados no século XIX. A experiência da viagem constituiu a base para o projeto que posteriormente daria origem à Flora brasiliensis.Martius iniciou a publicação da obra em 1840, mas sua conclusão ocorreu somente em 1906, décadas após sua morte. A continuidade do projeto ficou sob responsabilidade de outros botânicos, especialmente August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban, com a colaboração de dezenas de especialistas internacionais.
A obra foi produzida em um momento de intensa expansão das expedições científicas europeias e de sistematização do conhecimento sobre a natureza dos territórios colonizados e recém-independentes. A viagem de Martius pelo Brasil ocorreu poucos anos após a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro e durante o período de transformação política que culminaria na Independência do Brasil, em 1822. Seus registros participaram de um movimento mais amplo de classificação e descrição científica da natureza brasileira. A dimensão da obra, contudo, ultrapassa a trajetória individual de Martius. Sua produção envolveu uma extensa rede internacional de pesquisadores, ilustradores, editores e instituições. Nesse sentido, a Flora brasiliensis constitui também um exemplo histórico de produção coletiva do conhecimento científico. A partir de 1852, o governo brasileiro passou a contribuir para a publicação da obra, demonstrando a importância que o projeto adquiriu também para a construção institucional do conhecimento sobre a natureza brasileira.